VIAGEM APOSTÓLICA A TORONTO, A CIDADE DE GUATEMALA E A CIDADE DE MÉXICO

 

Nosso querido Papa, mesmo doente, reflexo de Jesus subindo o Calvário carregando a pesada Cruz  nos ombros, não mede esforços para estar junto aos jovens de quem diz:  eles representam o futuro do mundo... Os jovens estão reunindo-se para juntos empenhar-se, com a força da sua fé em Jesus Cristo, a servir a grande causa da paz e da solidariedade humana”.

Estejamos unidos, nestes dias, em oração, ao Santo Padre nesta sua 97º viagem apostólica.

 

XVII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE  

TORONTO 23 DE JULHO Palavras do Santo Padre na cerimônia de boas-vindas, no aeroporto da Cidade

A Revelação cristã deu um impulso vital ao vosso desenvolvimento como sociedade livre e democrática


Às 9.40 horas de terça-feira, 23 de Julho, João Paulo II e o Séqüito pontifício partiram do aeroporto internacional de Roma-Fiumicino (Itália) com destino ao Canadá, País que o Papa pisou pela terceira vez e onde, em Toronto, presidirá à celebração da XVII Jornada Mundial da Juventude, a realizar nos dias 25-28 deste mesmo mês.
O primeiro ato desta 97ª Viagem Apostólica do Santo Padre foi a cerimônia de boas-vindas, realizada na presença do Primeiro-Ministro do País, do Presidente da Conferência Episcopal Nacional, de várias Autoridades civis e religiosas, e de cinco jovens em representação dos cinco Continentes. Após a execução dos respectivos hinos e da parte protocolar do encontro, o Senhor Primeiro-Ministro dirigiu ao Santo Padre um breve discurso de boas-vindas, que o Papa quis retribuir com algumas palavras de saudação e agradecimento, antes de se transferir para a Ilha do Morango ("Strawberry Island"), a 50 minutos de helicóptero, ao Norte da Cidade.
Publicamos aqui a saudação proferida pelo Sumo Pontífice: 
Senhor Primeiro-Ministro
Jean Chrétien
Queridos Amigos do Canadá
1. Estou-lhe profundamente reconhecido, Senhor Primeiro-Ministro, pelas suas palavras de boas-vindas, e sinto-me muito honrado pela presença, à minha chegada, do Senhor Primeiro-Ministro do Ontário, do Presidente da Câmara Municipal da grande Cidade de Toronto e de diversos altos representantes do Governo e da sociedade civil. A todos exprimo do íntimo do coração um caloroso "obrigado":  obrigado por terdes respondido favoravelmente à idéia de acolher a Jornada Mundial da Juventude no Canadá, e obrigado por tudo aquilo que foi realizado a fim de que isto se tornasse uma realidade.
Queridos habitantes do Canadá, conservo uma recordação muito viva da minha primeira Viagem Apostólica, em 1984, e da breve visita que, em 1987, realizei às populações indígenas na terra de Denendeh. Desta vez, deverei contentar-me com a minha permanência somente em Toronto. Deste lugar, saúdo todos os cidadãos do Canadá. Vós estais presentes na minha prece de reconhecimento a Deus, que cumulou de bênçãos o vosso imenso e maravilhoso País.
2. Os jovens de todas as partes do mundo estão a reunir-se para a Jornada Mundial da Juventude. Com os seus dons de inteligência e de coração, eles representam o futuro do mundo. Mas também trazem consigo os sinais de uma humanidade que, com demasiada freqüência,  não  conhece  a  paz  ou  a justiça.
Muitas vidas começam e terminam sem alegria, nem esperança. Este é um dos principais motivos da Jornada Mundial da Juventude. Os jovens estão a congregar-se a fim de se comprometerem, na força da sua fé em Jesus Cristo, em favor da grande causa da paz e da solidariedade humanas.
Obrigado, Toronto! Obrigado, Canadá,  por  os  teres  recebido  de  braços abertos!
3. Na versão francôfona do vosso hino nacional "Ó, Canadá!", vós cantais:  "Para que o teu braço saiba empunhar a espada, para que saiba carregar a cruz". Os habitantes do Canadá são os herdeiros de um humanismo extraordinariamente rico, graças à associação de numerosos elementos culturais diferentes. Todavia, o núcleo da vossa herança é a concepção  espiritual  e  transcendente da vida, fundamentada na Revelação cristã,  que  deu  um  impulso  vital  ao vosso desenvolvimento como sociedade livre, democrática e solidária, reconhecida  no  mundo  inteiro  como  paladina dos direitos da pessoa humana e da sua dignidade.
4. Num mundo de grandes tensões sociais e éticas, e de confusão acerca da verdadeira finalidade da vida, os habitantes do Canadá têm um incomparável tesouro a oferecer contanto que preservem aquilo que existe de profundo, de bom e de válido na sua herança. Rezo para que a Jornada Mundial da Juventude ofereça a todos os cidadãos do Canadá uma oportunidade para recordarem os valores que são essenciais para uma  vida  sadia  e  para  a  felicidade humana.
Senhor Primeiro-Ministro e queridos Amigos, que o lema da Jornada Mundial da Juventude ressoe em toda a terra, exortando todos os cristãos a serem "sal da terra e luz do mundo".
Deus vos abençoe a todos!
Deus abençoe o Canadá!
Em inglês, o Papa disse ainda:  Estou-vos muito grato por esta recepção. E em francês:  Muito obrigado pelo vosso acolhimento. Esperamos por toda a Jornada Mundial da Juventude. Obrigado!

(©L'Osservatore Romano - 27 de Julho de 2002)

 

TORONTO 25 DE JULHO Saudação aos Jovens do mundo inteiro durante a Festa de Acolhimento

Ainda hoje, como antigamente, Jesus pode fazer arder o coração do jovem e motivar toda a sua existência


Depois de um dia de descanso na Ilha do Morango, uma pequena porção de terra de 40 acres no Lago Simcoe de propriedade da Congregação dos Padres Brasileiros franceses, que a utilizam como residência de Verão, na tarde do dia 25 de Julho o Santo Padre voltou a Toronto. Do heliporto da Cidade, João Paulo II percorreu 2 km. de papamóvel, até chegar ao "Exhibition Place", onde teve lugar a festa de recepção dos jovens.
No início da cerimônia, realizada sob o tema das Bem-Aventuranças (cf. Mt 5, 1-12), o Sumo Pontífice foi saudado pelo Bispo de St. Jean-Longueil, D. Jacques Berthelet, C.S.V., Presidente da Conferência dos Bispos Católicos do Canadá, e por cinco jovens em representação dos cinco Continentes. O Santo Padre saudou também os Jovens, logo a seguir à "Chamada das Nações". Executado o Hino da Jornada, fez-se a entrada da Cruz da J.M.J., com o testemunho de dois jovens canadenses.
Queridos Jovens Amigos
1. Viestes a Toronto de todos os continentes para celebrar a Jornada Mundial da Juventude. Saúdo-vos com alegria e sinceridade! Esperei ansiosamente este encontro, de maneira especial quando, quotidianamente e de todas as partes do mundo, comecei a receber no Vaticano boas notícias acerca de todas as iniciativas que caracterizaram a vossa viagem até aqui. E com freqüência, mesmo sem vos encontrar, recomendava-vos, um por um, nas minhas orações ao Senhor. Ele conhece-vos desde sempre e ama-vos a cada um pessoalmente.
É com afeto fraternal que saúdo os Cardeais e Bispos que estão aqui convosco; de modo particular o Bispo D. Jacques Berthelet, Presidente da Conferência dos Bispos Católicos do Canadá, o Cardeal Aloysius Ambrozic, Arcebispo desta Cidade, e o Cardeal James Francis Stafford, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos. A todos, digo-vos:  oxalá os contactos com os vossos Pastores vos ajudem a descobrir e estimar cada vez mais a beleza da Igreja, experimentada como comunhão missionária.
2. Ouvindo a longa lista dos países de onde sois oriundos, demos em conjunto, por assim dizer, a volta ao mundo. Atrás de cada um de vós, pude ver o rosto dos jovens da vossa idade, que encontrei durante as minhas viagens apostólicas e que hoje, de alguma forma, são por vós aqui representados. Imaginei-vos a caminho, à sombra da cruz do Jubileu, nesta grandiosa peregrinação da juventude que, passando de continente para continente, deseja apertar o mundo inteiro num abraço de fé e de esperança.
Hoje, esta peregrinação faz uma paragem aqui, nas margens do Lago Ontário, que nos recorda outro lago, o Lago de Tiberíades, em cujas margens o Senhor Jesus dirigiu aos seus primeiros discípulos entre os quais havia provavelmente alguns que eram jovens como vós uma proposta fascinante (cf. Jo 1, 35-42).
3. O Papa, que vos quer bem, veio de longe para escutar de novo, juntamente convosco, a palavra de Jesus que ainda nos dias de hoje, como aconteceu com os discípulos naquele dia distante no tempo, pode fazer arder o coração de um jovem e motivar toda a sua existência. Por isso, convido-vos a fazer das várias atividades da Jornada Mundial da Juventude, que há pouco teve início, um período privilegiado em que cada um de vós, queridos jovens e diletas jovens, se porá à escuta do Senhor, com um coração disponível e generoso, para se tornarem "sal da terra e luz do mundo" (cf. Mt 5, 13-16).

(©L'Osservatore Romano - 27 de Julho de 2002)

 

TORONTO 25 DE JULHO Discurso aos Jovens na Festa de Acolhimento da Jornada Mundial da Juventude

Ouvi as vossas vozes alegres e compreendi a expectativa profunda dos vossos corações:  vós quereis ser felizes


No primeiro encontro com os Jovens chegados do mundo inteiro para a Jornada Mundial da Juventude e no decorrer da celebração a que nos referimos acima, João Paulo II foi recebido por todos com grande entusiasmo. A celebração teve como tema as Bem-Aventuranças, com relevo para a dos "construtores da paz". O Papa fez a pequena saudação que publicamos acima. Depois da proclamação do Evangelho das Bem-Aventuranças, João Paulo II dirigiu a palavra aos presentes. Houve uma dança e palavras de agradecimento, estas ditas por dois jovens e todos cantaram o Pai-Nosso. Depois da Bênção papal, de novo foi cantado o Hino da Jornada, antes da despedida e regresso aos locais de permanência dos participantes. É este o texto das palavras do Santo Padre: 
Queridos Jovens!
1. A página das Bem-aventuranças que acabamos de escutar é a Carta Magna do cristianismo. É com os olhos do coração que revivemos a cena desse dia:  uma multidão de pessoas circunda Jesus no monte; são homens e mulheres, jovens e idosos, sãos e doentes, provenientes da Galiléia, mas também de Jerusalém, da Judéia, das cidades da Decápole, de Tiro e de Sídon. Todos esperam uma palavra ou um gesto que lhes possa dar conforto e esperança.
Esta tarde, também nós estamos reunidos para nos pormos à escuta do Senhor. É com grande carinho que olho para vós:  provindes de várias regiões do Canadá, dos Estados Unidos, da América Central, da América do Sul, da Europa, da África, da Ásia e da Oceania. Ouvi as vossas vozes alegres, os vossos gritos, os vossos cânticos, e compreendi a expectativa profunda dos vossos corações:  vós quereis ser felizes!
Queridos jovens, as propostas que recebeis de todas as partes são numerosas e aliciantes:  muitos falam de uma alegria que se pode obter com o dinheiro, com o sucesso e com o poder. Sobretudo, falam-vos de uma alegria que coincidiria com o prazer superficial e transitório dos sentidos.
2. Queridos amigos, ao vosso desejo de jovens de ser felizes, o velho Papa, responde com palavras que não são suas. Elas ressoaram há dois mil anos. Esta tarde nós ouvimo-las de novo:  "Bem-aventurados...". A palavra-chave do ensinamento de Jesus é um anúncio de alegria:  "Bem-aventurados...".
O homem é feito para a felicidade. Por conseguinte, a vossa sede de felicidade é legítima. Cristo tem a resposta para as vossas expectativas. Ele pede-vos que tenhais confiança nele. A verdadeira alegria é uma conquista, que não se pode obter sem uma luta longa e difícil. Cristo possui o segredo da vitória.
Vós conheceis os antecedentes. O livro do Gênesis narra-os:  Deus criou o homem e a mulher num paraíso, o Éden, porque queria que eles fossem felizes. Infelizmente o pecado alterou os seus projetos iniciais. Deus não se resignou a este jogo. Enviou o seu Filho à terra a fim de dar ao homem a perspectiva de um céu ainda mais bonito. Deus fez-se homem os Padres da Igreja realçaram-no bem para que o homem pudesse tornar-se Deus. Foi esta a mudança decisiva que a Encarnação deu à história humana.
3. Onde está a luta? A resposta é-nos dada pelo próprio Cristo. "Ele que era de condição divina", escreveu São Paulo, "não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas... tomando a condição de servo... humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte" (Fil 2, 6-8). Trata-se de uma luta até à morte. Cristo viveu esta luta não para si mas para nós. Desta morte desabrocha a vida. O túmulo do Calvário tornou-se o berço da humanidade nova a caminho para a felicidade verdadeira.
O "Sermão da Montanha" traça o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. É um caminho em subida, mas foi o primeiro que Jesus percorreu. E está pronto para o percorrer de novo. Certo dia ele disse:  "Quem Me segue não andará nas trevas" (Jo 8, 12). E  noutra  ocasião  acrescentou:   "Digo-vos isto para que a Minha alegria esteja em vós e o vosso gozo seja completo" (Jo 15, 11).
Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira! É precisamente por este motivo que ele ainda hoje vos faz um apelo à alegria:  "Bem-aventurados...".
Ao receber agora a sua Cruz gloriosa, esta  Cruz  que  percorreu  com  os  jovens  as  estradas  do  mundo,  deixai que  no  silêncio  do  vosso  coração  ressoe esta palavra confortadora:  "Bem-aventurados...".
Depois da procissão dos jovens com a Cruz do Ano Santo, o Papa retomou o seu discurso: 
4. Reunidos à volta da Cruz do Senhor, olhemos para Ele:  Jesus não se limitou a pronunciar as Bem-aventuranças; Ele viveu-as. Olhando a sua vida, relendo o Evangelho, ficamos admirados:  o mais pobre dos pobres, o ser mais dócil dos homens, a pessoa com o coração mais puro e misericordioso é precisamente Ele, Jesus. As Bem-aventuranças mais não são que a descrição de um rosto, o seu Rosto!
Ao mesmo tempo, as Bem-aventuranças descrevem o cristão:  elas são o retrato do discípulo de Jesus, a fotografia do homem que aceitou o Reino de Deus e deseja sintonizar a própria vida com as exigências do Evangelho. Jesus dirige-se a este homem chamando-o "bem-aventurado".
A alegria que as Bem-aventuranças prometem é a mesma alegria de Jesus:  uma alegria procurada e encontrada na obediência ao Pai e no dom de si aos irmãos.
5. Jovens do Canadá, da América e de todas as partes do mundo! Olhando para Jesus podeis aprender o que significa ser pobres em espírito, humildes e misericordiosos; o que significa procurar a justiça, ser puros de coração, realizadores de paz.
Com o olhar fixo n'Ele, podeis descobrir o caminho do perdão e da reconciliação num mundo muitas vezes tomado pela violência e pelo terror. Experimentamos com dramática evidência, durante o ano passado, o rosto trágico da maldade humana. Vimos o que acontece quando reinam o pecado o ódio e a morte.
Mas hoje a voz de Jesus ressoa no meio da nossa assembléia. A sua é uma voz de vida, de esperança, de perdão; é voz de justiça e de paz. Escutemo-la!
6.  Queridos  amigos,  a  Igreja  hoje olha para vós com confiança e espera que vos torneis o povo das bem-aventuranças.
Bem-aventurados vós, se fordes como Jesus, pobres em espírito, bons e misericordiosos; se souberdes procurar o que é justo e reto; se tiverdes um coração puro, se fordes realizadores de paz, amantes e servos dos pobres. Bem-aventurados!
Só Jesus é o verdadeiro Mestre, só Jesus apresenta uma mensagem que não muda, mas que responde às expectativas mais profundas do coração do homem, Ele sabe o que cada um leva no coração, porque só Ele conhece "o interior de cada um" (Jo 2, 25). Hoje, ele chama-vos a ser sal e luz do mundo, a optar pela bondade, a viver na justiça, a tornar-vos instrumentos de amor e de paz. A sua chamada exigiu sempre uma opção entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre a vida e a morte. O mesmo convite é feito hoje a vós que vos encontrais aqui, nas margens do lago Ontário.
7. Qual será a chamada que as sentinelas da manhã escolherão seguir? Crer em Jesus significa acolher o que Ele diz, mesmo se vai contra a corrente em relação ao que dizem os outros. Significa recusar as solicitações do pecado, por muito atraentes que elas possam ser, e encaminhar-se pelo caminho exigente das virtudes evangélicas.
Jovens que me escutais, respondei ao Senhor com um coração forte e generoso! Ele conta convosco. Não vos esqueçais:  Cristo precisa de vós para realizar o seu projeto de salvação! Cristo precisa da vossa juventude e do vosso generoso entusiasmo para fazer ressoar o seu anúncio de alegria no novo milênio. Respondei ao seu apelo pondo a vossa vida ao Seu serviço nos irmãos! Tende confiança em Cristo, porque Ele confia em vós.
8. Senhor Jesus Cristo,
proclama mais uma vez
as tuas Bem-aventuranças
diante destes jovens,
reunidos aqui em Toronto
para a sua Jornada Mundial.
Olha com amor para estes jovens
e escuta estes jovens corações,
que estão dispostos a arriscar
o seu futuro por ti.
Tu chamaste-os para que fossem
"sal da terra e luz do mundo".
Continua a ensinar-lhes a verdade
e a beleza das perspectivas
por ti anunciadas no Monte.
Faz deles homens e mulheres
das Bem-aventuranças!
Resplandeça neles a luz
da tua sabedoria, de forma que,
com as palavras e com as obras
saibam difundir
a luz e o sal do Evangelho.
Faz com que toda a sua vida
seja um reflexo luminoso de ti,
que és a Luz verdadeira,
que veio ao mundo, para que,
todos os que crêem em Ti,
não pereçam, mas tenham
a vida eterna (cf. Jo 3, 16)!
No final do encontro, antes de conceder a Bênção conclusiva, o Papa disse: 
Queridos amigos, agradeçamos ao Senhor o dom da juventude. A juventude vem e passa, mas permanece em toda a vida. Obrigado pelo dom das danças e boa continuação.

(©L'Osservatore Romano - 27 de Julho de 2002)

 

TORONTO 27 DE JULHO Saudação às Irmãs de São José

Disponibilidade para servir


Na manhã de sábado, 27 de Julho, proveniente da "Strawberry Island", o Santo Padre chegou à Casa Geral das Irmãs de São José de Toronto, que foi a sua residência durante a permanência nesta cidade, até ao dia 29. Antes de recitar a oração mariana do Angelus, o Papa dirigiu a estas religiosas a seguinte saudação: 
Queridas Irmãs
Agradeço-vos profundamente a hospitalidade que me ofereceis na ocasião da minha estadia em Toronto para a celebração da XVII Jornada Mundial da Juventude. Estou ao corrente da colaboração prestada pelas Irmãs de São José, juntamente com muitos outros religiosos e religiosas, na preparação deste grande acontecimento e no acolhimento dos jovens do mundo:  a todos e a cada um manifesto a expressão da minha mais sentida gratidão.
A vossa Congregação celebrou há pouco os 150 anos de vida:  convosco bendigo ao Senhor que realizou maravilhas através da dedicação, do sacrifício e do serviço humilde e escondido de tantas Irmãs de São José, e peço-Lhe que continue a assistir-vos com a sua graça e com o dom do seu Espírito no vosso empenho de confiar a Deus o que sois e o que sereis, na constante disponibilidade de serdes enviadas, como Jesus, a servir o próximo.
Maria,  esposa  de  São José,  seja  para vós  mãe  e  mestra  de  vida  e  de santidade.

(©L'Osservatore Romano - 3 de Agosto de 2002)

 

TORONTO 27 DE JULHO Saudação aos jovens,
no início da vigília de oração pela Jornada Mundial

A Igreja vê em vós o seu futuro e encontra a vocação
à juventude com que o Espírito de Deus a enriquece


No início da noite de sábado, 27 de Julho, o Santo Padre transferiu-se de helicóptero, da Casa Geral das Irmãs de São José para o Parque "Downsview", em Toronto onde, em 1984, também celebrou uma Santa Missa durante a sua Visita Pastoral. Aqui os jovens prepararam-se para celebrar a Vigília de Oração, cantando as Ladainhas dos Santos e Beatos, irmãos maiores na fé e modelos a imitar. O tema da Grande Vigília do Papa com os Jovens é o do Dia Mundial da Juventude:  "Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do Mundo" (Mt 5, 13-14). No início deste encontro, o Papa saudou em várias línguas os jovens ali presentes, bem como os que seguiam este acontecimento através dos meios de comunicação, com as seguintes palavras: 
Queridos Jovens do mundo inteiro
Estimados Amigos
Dileto Povo das Bem-Aventuranças
1. Saúdo-vos a todos com afeto, no nome do Senhor! Sinto-me feliz por me encontrar convosco mais uma vez, depois dos dias de catequese, reflexão, partilha e festa que vivestes. Aproximamo-nos da fase conclusiva do vosso Dia mundial, que terá a sua coroação amanhã com a celebração da Eucaristia.
É em vós, aqui reunidos em Toronto e provenientes dos quatro recantos da terra, que a Igreja vê o seu futuro e encontra a chamada àquela juventude com a qual o Espírito de Cristo a enriquece constantemente. O entusiasmo e a alegria que manifestais são os sinais do vosso amor ao Senhor e do vosso desejo de o servir na Igreja e nos vossos irmãos.
2. Nos últimos dias em Wadowice a minha cidade natal foi realizado o III Fórum Internacional de Jovens, que reuniu católicos, greco-católicos e ortodoxos provenientes da Polônia e da Europa do Leste. Mas hoje, reuniram-se lá milhares de jovens da toda a Polônia para se unirem a nós através da rádio e da televisão e para viverem conosco esta vigília de oração. Permiti que eu os saúde em polaco: 
Saúdo os jovens de língua polaca, que vieram aqui em tão grande número da nossa Pátria e dos outros Países do mundo, e os milhares de jovens que, de toda a Polônia e dos Países da Europa do Leste, se reuniram em Wadowice para viver juntamente conosco esta vigília de oração. Desejo a todos que estes dias dêem abundantes frutos de generoso impulso na adesão a Cristo e ao seu Evangelho.
Amados jovens amigos, agradeço-vos a vossa presença em Toronto, abraço-vos de coração e não cesso de rezar por vós, a fim de que agora e sempre sejais o sal da terra e a luz do mundo.
Saúdo com afeto os jovens italianos aqui presentes e quantos, da Itália, se unem a nós através da televisão. Juntamente com os jovens, que nas diversas regiões da terra vivem de várias maneiras esta Jornada da Juventude, queremos abarcar o mundo inteiro com um abraço de fé e de amor, para proclamar a nossa fé em Cristo, amigo fiel que ilumina o caminho de cada homem.
3. Durante a Vigília desta noite receberemos a Cruz de Cristo, testemunho do amor de Deus pela humanidade. Aclamaremos o Senhor ressuscitado, luz que resplandece nas trevas. Rezaremos com os Salmos, repetindo as mesmas palavras pronunciadas por Jesus quando se dirigiu ao Pai durante a sua vida terrena. Elas são, ainda hoje, a oração da Igreja. Por fim, ouviremos a Palavra do Senhor, lâmpada para os nossos passos, luz sobre o nosso caminho (cf. Sl 119, 105).
Convido-vos a ser a voz dos jovens do mundo, das suas alegrias, desilusões e esperanças. Olhai para Jesus, o Vivente, e repeti-lhe a imploração dos Apóstolos:  "Senhor, ensina-nos a rezar". A oração será como o sal que dá sabor à vossa existência e vos orienta para Ele, luz verdadeira da humanidade.

(©L'Osservatore Romano - 3 de Agosto de 2002)

 

 

TORONTO 27 DE JULHO Vigília de oração, na esplanada do Parque "Downsview"

"Caros jovens, deixai-vos atrair pela luz de Cristo
e irradiai-a nos ambientes em que viveis!"


Depois de ter jantado na Casa Geral das Irmãs de São José, no início da noite de sábado 27 de Julho, o Santo Padre transferiu-se de helicóptero para o Parque "Downsview", uma imensa esplanada que pode conter quinhentas mil pessoas.
Os jovens prepararam-se para a Vigília de Oração, refletindo sobre o tema da Jornada Mundial da Juventude:  "Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo" (Mt 5, 13-14), e entoando as Ladainhas dos Santos e dos Beatos, verdadeiros modelos de fé a imitar. Após a introdução das Vésperas, da saudação litúrgica do Santo Padre, da procissão, da oração dos fiéis em onze línguas e do testemunho de três jovens, João Paulo II proferiu em inglês, francês e polaco a homilia, cujo texto passamos agora a apresentar aos nossos leitores: 
Queridos Jovens
1. Quando, em 1985, quis dar início às Jornadas Mundiais da Juventude, pensei nas palavras do Apóstolo João, que ouvimos nesta noite:  "O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida... isso vos anunciamos" (1 Jo 1, 1.3). E imaginei as Jornadas Mundiais da Juventude como um momento forte em que os jovens do mundo pudessem aprender dele a ser os evangelizadores dos outros jovens.
Nesta noite, juntamente convosco, louvo a Deus e dou-lhe graças pelas dádivas derramadas sobre a Igreja através das Jornadas Mundiais da Juventude. Milhões de jovens participaram nas mesmas tornando-se, por conseguinte, testemunhas cristãs melhor e mais comprometidas. Estou-vos particularmente grato a vós, que respondestes ao meu convite para vir aqui a Toronto, em ordem a "proclamar a todo o mundo a vossa alegria por terdes encontrado Cristo Jesus, o vosso desejo de conhecê-lo cada vez melhor, o vosso compromisso de anunciar o Evangelho de salvação até ao últimos confins da terra!" (Mensagem para a XVII Jornada Mundial da Juventude, 25 de Julho de 2001, n. 5).
2. O novo milênio começou com dois cenários contrastantes:  um, a visão de multidões de peregrinos que foram a Roma durante o Grande Jubileu para passar pela Porta Santa, que é Cristo, nosso Salvador e Redentor do homem; e o outro, o terrível ataque terrorista em Nova Iorque, imagem esta que constitui uma espécie de representação de um mundo em que a hostilidade e o ódio parecem prevalecer.
A questão que se levanta é dramática:  sobre que fundamentos devemos edificar a nova era histórica, que está a nascer das grandiosas transformações do século XX? É suficiente confiar na revolução tecnológica, hoje em ato, que parece respeitar unicamente os critérios da produtividade e da eficácia, sem fazer referência à dimensão espiritual do indivíduo ou a quaisquer valores éticos universalmente compartilhados? É justo contentar-se com respostas provisórias aos problemas de fundo, abandonando a vida aos impulsos do instinto, às sensações  efêmeras  ou  aos  entusiasmos passageiros?
Esta interrogação volta a ressoar:  sobre que fundamentos e que certezas deveremos edificar as nossas vidas e a existência  da  comunidade  a  que  pertencemos?
3. Queridos Amigos, espontaneamente nos vossos corações, no entusiasmo dos vossos anos juvenis, vós conheceis a resposta [a esta interrogação], e estais a manifestá-la através da vossa presença aqui nesta noite:  somente Cristo é a pedra angular sobre a qual é possível construir solidamente o edifício da própria existência. Somente Cristo conhecido, contemplado e amado é o amigo fiel que jamais nos desilude, que se torna o nosso companheiro de viagem, e cujas palavras  aquecem  o  nosso  coração (cf. Lc 24, 13-35).
O século XX procurou, com freqüência, subsistir sem esta pedra angular, tentando construir a cidade do homem sem Lhe fazer referência. Na realidade, terminou por edificar uma cidade contra o homem! Os cristãos sabem que não é possível rejeitar ou ignorar Deus, sem diminuir o homem.
4. A expectativa que a humanidade alimenta, no meio de tantas injustiças e sofrimentos é a de uma nova civilização, caracterizada pela liberdade e pela paz. Contudo, para realizar este empreendimento, é necessária uma nova geração de construtores que, animados não pelo medo ou pela violência, mas pela urgência de um amor autêntico, saibam pôr uma pedra sobre a outra em ordem a edificar, na cidade dos homens, a cidade de Deus.
Estimados jovens, permiti-me confiar-vos a minha esperança:  sois vós que deveis tornar-vos estes "construtores". Vós sois os homens e as mulheres do futuro; o porvir está nos vossos corações e nas vossas mãos. É a vós que Deus confia a tarefa, difícil mas exaltante, de colaborar com Ele em ordem a edificar a civilização do amor.
5. Na primeira Carta de João o Apóstolo mais jovem e, talvez, por isso mais amado pelo Senhor ouvimos que "Deus é a luz e que nele não existem trevas" (cf. 1 Jo 1, 5). Entretanto observa João ninguém jamais viu a Deus. É Jesus, o Filho único do Pai, que no-lo revelou (cf. Jo 1, 18). Todavia, se Jesus revelou Deus, Ele revelou a luz. Com efeito, juntamente com Cristo, veio ao mundo "a verdadeira luz que a todo o homem ilumina" (Jo 1, 9).
Caros jovens, deixai-vos atrair pela luz de Cristo e espalhai-a nos ambientes em que viveis! "A luz do olhar de Jesus como está escrito no Catecismo da Igreja Católica ilumina os olhos do nosso coração; ensina-nos a ver tudo à luz da sua verdade e da sua compaixão para com todos os homens" (n. 2715).
Na medida em que a vossa amizade com Cristo, o vosso conhecimento do seu mistério e a vossa entrega pessoal a Ele forem autênticos e profundos, vós sereis "filhos da luz" e tornar-vos-eis, por vossa vez, "luz do mundo". Por isso, reitero-vos a palavra do Evangelho:  "Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos céus" (Mt 5, 16).
Nesta noite, juntamente convosco, jovens dos diferentes Continentes, o Papa volta a confirmar a fé que sustenta a vida da Igreja:  Cristo é a luz das nações; Ele morreu e ressuscitou para dar de novo aos homens, que caminham na história, a esperança da eternidade. O seu Evangelho não humilha o que é humano:  todo o valor autêntico, qualquer que seja a cultura em que se manifeste, é acolhido e assumido por Cristo. Consciente disto, o cristão não pode deixar de sentir vibrar em si mesmo o orgulho e a responsabilidade de ser testemunha da luz do Evangelho.
Este é o motivo pelo qual, nesta noite, vos digo:  fazei resplandecer a luz de Cristo nas vossas vidas! Não espereis por ser mais idosos, para vos empenhardes no caminho da santidade! A santidade é sempre jovem, como eterna é a juventude de Deus.
Fazei com que todos conheçam a beleza do encontro com Deus, que dá sentido à vossa existência. Não hesiteis na busca da justiça, da promoção da paz e do compromisso em ordem à fraternidade e à solidariedade.
Como é bonito o cântico que ressoa nestes dias: 
"Luz do mundo! Sal da terra!
Sede para o mundo o rosto do amor!
Sede para a terra o reflexo da luz!".
Este é o dom mais belo e mais precioso que poderíeis oferecer à Igreja e ao mundo. E vós bem sabeis que o Papa vos acompanha com a sua oração e a sua Bênção cheia de afeto.
7. Meus diletos jovens amigos, agradeço-vos a vossa presença em Toronto, em Wadowice e onde quer que estejais espiritualmente unidos aos jovens do mundo, que vivem a sua XVII Jornada Mundial da Juventude. Quero garantir-vos que vos abraço a cada um sem cessar, com o coração e a oração, pedindo a Deus que possais ser o sal da terra e a luz do mundo, agora e quando fordes adultos. Deus vos abençoe!
No final do discurso, depois de ter concedido a Bênção apostólica a todos os fiéis e peregrinos ali presentes, o Santo Padre disse ainda: 
Sois todos convidados para amanhã de manhã. Bom repouso!
Boa noite, Deus vos abençoe sempre. Boa noite!

(©L'Osservatore Romano - 3 de Agosto de 2002)

 

TORONTO 28 DE JULHO Homilia na Santa Missa de encerramento da XVII Jornada Mundial da Juventude

"O Papa continua a identificar-se plenamente
com as vossas esperanças e as vossas aspirações"


Na manhã de domingo 28 de Julho, o Santo Padre chegou de helicóptero ao Parque "Downsview", na Capital do Ontário, onde o aguardava uma grande multidão de jovens, para a participação na Celebração eucarística conclusiva desta XVII Jornada Mundial da Juventude, sobre o já conhecido tema "Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo" (Mt 5, 13-14). Concelebrada por cerca de 400 bispos e 1.000 presbíteros, a Santa Missa teve início com a saudação litúrgica do Santo Padre e com as palavras introdutivas do Arcebispo de Toronto, o Senhor Cardeal Aloysius Matthew Ambrozic.
Antes da profissão de fé, sob forma de diálogo, e da oração dos fiéis em diversas línguas, João Paulo II proferiu uma homilia em inglês, francês e espanhol, cuja tradução publicamos aqui: 
"Vós sois o sal da terra...
Vós sois a luz do mundo"
(Mt 5, 13-14).
Queridos jovens da
XVII Jornada Mundial da Juventude
Estimados Irmãos e Irmãs
1. Numa montanha dos arredores do Lago da Galiléia, os discípulos de Jesus estavam à escuta da sua voz suave e premente:  suave como a própria paisagem da Galiléia, e premente como um apelo a escolher entre a vida e a morte, entre a verdade e a mentira. Então, o Senhor pronunciou palavras de vida, destinadas a ressoar para sempre no coração dos discípulos.
Hoje, Ele dirige-vos as mesmas palavras a vós, jovens de Toronto, do Ontário e de todo o Canadá, dos Estados Unidos, do Caribe, da América de línguas espanhola e portuguesa, da Europa, da África, da Ásia e da Oceania. Escutai a voz de Jesus, no mais profundo dos vossos corações! As suas palavras dizem-vos quem sois como cristãos. Elas ensinam-vos aquilo que deveis fazer para permanecer no seu amor.
2. Jesus oferece uma coisa, enquanto "o espírito do mundo" oferece outra. Na leitura de hoje, tirada da Carta aos Efésios, São Paulo afirma que Jesus nos faz passar das trevas para a luz (cf. 5, 8). Sem dúvida, o grande Apóstolo pensava na luz que o tinha cegado, a ele que era o perseguidor dos cristãos, no caminho de Damasco. Quando recuperou a vista, nada mais era como antes. Paulo nasceu de novo e nada mais lhe podia subtrair a alegria, que tinha inundado a sua alma.
Prezados jovens, também vós sois chamados a deixar-vos transformar. "Desperta, tu que dormes. Levanta-te de entre os mortos e Cristo te iluminará" (Ef 5, 14):  é ainda Paulo que fala.
O "espírito do mundo" oferece múltiplas ilusões, numerosas paródias da felicidade. Sem dúvida, não existem trevas mais densas do que aquelas que se insinuam na alma dos jovens, quando os falsos profetas extinguem neles a luz da fé, da esperança e da caridade. A maior utopia, a fonte mais importante da infelicidade consiste na ilusão de encontrar a vida renunciando a Deus, de conquistar a liberdade excluindo as verdades morais e a responsabilidade pessoal.
3. O Senhor convida-vos a escolher entre estas duas vozes, que concorrem para se apoderar da vossa alma. Esta opção constitui a substância e o desafio da Jornada Mundial da Juventude. Por que motivo vos reunistes aqui, oriundos de todas as regiões do mundo? Para dizerdes, juntamente com Cristo:  "Senhor, para quem havemos de ir?" (Jo 6, 68). Quem é que tem palavras de vida eterna? É Jesus, o amigo íntimo de cada jovem, que tem palavras de vida.
O mundo que haveis de herdar tem, desesperadamente, necessidade de um sentido renovado da fraternidade e da solidariedade humanas. Trata-se de um mundo que precisa de ser sensibilizado e curado pela beleza e pela riqueza do amor de Deus. O mundo contemporâneo precisa de testemunhas deste amor. Ele tem necessidade de que sejais o sal da terra e a luz do mundo. O mundo tem necessidade de vós, precisa do sal, de vós como sal da terra e como luz do mundo!
4. É ao sal que se recorre para conservar e manter sãos os alimentos. Como apóstolos do terceiro milênio, cabe a vós conservar e manter viva a consciência da presença de Jesus Cristo, nosso Salvador, de maneira especial na celebração da Eucaristia, memorial da sua morte redentora e da sua gloriosa ressurreição. Deveis conservar viva a recordação  das  palavras  de  vida  que Ele  pronunciou,  das  maravilhosas obras  de  misericórdia  e  de  bondade que Ele realizou. Deveis recordar ao mundo, constantemente, que "o Evangelho é a força de Deus para a salvação" (cf. Rm 1, 16)!
O sal tempera e dá sabor à comida. Seguindo Cristo, deveis transformar e melhorar o "sabor" da história humana. Com a vossa fé, esperança e amor, com a vossa inteligência, fortaleza e perseverança, deveis humanizar o mundo em que vivemos. Na primeira leitura de hoje, já o Profeta Isaías nos indicava a maneira de realizar isto:  "Acabar com as prisões injustas... repartir o pão com quem passa fome... se tirares do meio de ti... o gesto que ameaça e a linguagem injuriosa... Então, a tua luz brilhará nas trevas" (58, 6-10).
5. Até mesmo uma pequena chama pode dissipar o obscuro véu da noite. Quanto maior será a luz que vós fareis se, todos juntos, vos unirdes como um só na comunhão da Igreja! Se amais Jesus, amai a Igreja! Não desanimeis perante os pecados e as faltas de alguns dos seus membros. O dano que alguns presbíteros e religiosos causam aos jovens e às pessoas vulneráveis enche-nos de um profundo sentido de tristeza e de vergonha. Contudo, pensai na vasta maioria dos sacerdotes e religiosos dedicados e generosos, cujo único desejo consiste em servir e em praticar o bem! Hoje, há muitos sacerdotes, seminaristas e pessoas consagradas aqui presentes; permanecei perto deles e ajudai-os! E se, nas profundezas dos vossos corações, sentis o mesmo chamamento ao sacerdócio ou à vida consagrada, não tenhais medo de seguir Cristo no caminho real da Cruz! Nos momentos difíceis da vida na Igreja, a busca da santidade torna-se ainda mais urgente. E a santidade não é uma questão de idade; trata-se de viver no Espírito Santo, precisamente como já fizeram Kateri Tekakwitha, aqui na América, e muitos outros jovens.
Vós sois jovens e o Papa é idoso, e ter 82 ou 83 anos não é a mesma coisa que ter 22 ou 23. Todavia, ele continua a identificar-se plenamente com as vossas esperanças e as vossas aspirações. Juventude de espírito, juventude de espírito! Embora eu tenha vivido no meio de muitas trevas, sob duros regimes totalitários, tive suficientes motivos para me convencer de maneira inabalável de que nenhuma dificuldade e nenhum temor é tão grande a ponto de poder sufocar completamente a esperança que jorra sem cessar no coração dos jovens.
Vós sois a nossa esperança, os jovens são a nossa esperança! Não permitais que esta esperança morra. Comprometei a vossa vida com ela. Nós não somos a soma das nossas dificuldades e falências; constituímos a soma do amor do Pai por nós e da nossa capacidade concreta de nos tornarmos imagem do seu Filho.
6. Termino com uma oração: 
Ó Senhor Jesus Cristo,
Conservai estes jovens
no vosso amor.
Permiti que ouçam a vossa voz
e acreditem naquilo que dizeis
porque somente Vós tendes
palavras de vida eterna.
Ensinai-os a professar a sua fé,
a manifestar o seu amor
e a transmitir a sua esperança
aos outros.
Fazei deles testemunhas
convictas do vosso Evangelho
num mundo tão necessitado
da vossa graça salvífica.
Fazei deles o novo povo
das Bem-Aventuranças,
a fim de que possam ser
o sal da terra
e a luz do mundo no início
do terceiro milênio cristão!
Maria, Mãe da Igreja,
protege e guia estes jovens
e estas jovens do século XXI,
conservando-nos a todos
junto do teu Coração maternal!
Amem!

(©L'Osservatore Romano - 3 de Agosto de 2002)

 

CANONIZAÇÃO DO BEATO IRMÃO PEDRO
DE SÃO JOSÉ DE BETANCUR

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Hipódromo da Cidade da Guatemala
Terça-feira, 30 de Julho de 2002

 

1. "Vinde, benditos de meu Pai... Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes (Mt 25, 34.40). Como não pensar que estas palavras de Jesus, com as quais se concluirá a história da humanidade, possam ser adequadas também para o Irmão Pedro, que, com tanta generosidade, se dedicou ao serviço dos mais pobres e abandonados?

Hoje, ao inscrever no álbum dos Santos o Irmão Pedro de São José de Betancur, faço-o convencido da atualidade da sua mensagem. O novo Santo, levando como bagagem unicamente a sua fé e a sua confiança em Deus, atravessou o Atlântico para servir os pobres e os indígenas da América:  primeiro em Cuba, depois em Honduras e, por fim, neste abençoado solo da Guatemala, a sua "terra prometida".

2. Agradeço cordialmente as palavras que me foram dirigidas por D. Rodolfo Quezada, Arcebispo da Cidade de Guatemala, apresentando-me a estas queridas comunidades eclesiais. Saúdo os Senhores Cardeais, os Bispos da Guatemala, o Bispo de Tenerife e todos os que vieram de outras partes do Continente americano.

Saúdo também com grande estima os sacerdotes, os consagrados, as consagradas e inclusive as religiosas de clausura. Dirijo uma saudação especial e afetuosa aos Irmãos da Ordem de Belém e às Irmãs Betlemitas, fruto da inspiração da Madre Encarnação Rosal, primeira Beata guatemalteca e reformadora da Comunidade que deu início a fundação, para recuperar os valores fundamentais dos seguidores do Irmão Pedro.

Agradeço particularmente a presença nesta celebração dos Presidentes das Repúblicas da Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, do Primeiro-Ministro de Belize e das outras Autoridades civis. Estimo também a participação neste ato da missão vinda da Espanha para esta feliz ocasião.

Desejo, de igual modo, exprimir o meu apreço e proximidade aos numerosos indígenas. O Papa não se esquece de vós e, ao apreciar os valores das vossas culturas, estimula-vos a superar com esperança as situações, por vezes difíceis, que estais a viver. Edificai o futuro com responsabilidade, trabalhai pelo progresso harmonioso do vosso povo! Mereceis todo o respeito e tendes direito a realizar-vos plenamente na justiça, no desenvolvimento integral e na paz.

3. "Fortalecidos pelo seu Espírito... Cristo habite pela fé nos vossos corações... de tal sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender... a profundidade do amor de Cristo" (Ef 3, 16-19). Estas palavras de São Paulo, que acabamos de escutar, manifestam como o encontro interior com Cristo transforma o ser humano, enchendo-o de misericórdia para com o próximo.
O Irmão Pedro foi homem de oração profunda, já na sua terra natal, Tenerife, e depois em todas as etapas da sua vida, até chegar aqui, onde especialmente na eremitério do Calvário, buscava assiduamente a vontade de Deus em todos os momentos.

Assim, ele é um luminoso exemplo para os cristãos de hoje, aos quais recorda que, para ser santo "há necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração" (Novo millennio ineunte, 32). Por isso, repito a minha exortação a todas as comunidades cristãs da Guatemala e de outros países, para que sejam autênticas escolas de oração, nas quais rezar seja a parte central de todas as atividades. Uma vida de piedade intensa produz sempre abundantes frutos.

Foi assim que o Irmão Pedro formou a sua espiritualidade, particularmente na contemplação dos mistérios de Belém e da Cruz. Se no nascimento e na infância de Jesus aprofundou o acontecimento fundamental da Encarnação do Verbo, que o levou a descobrir quase naturalmente o rosto de Deus no homem, na meditação sobre a Cruz encontrou a força para praticar heroicamente a misericórdia com os mais pequeninos e necessitados.

4. Hoje somos testemunhas da verdade profunda das palavras do Salmo que há pouco recitamos:  o justo "não teme. Distribui do que é seu, dá aos pobres; a sua prosperidade subsiste para sempre" (11, 8-9). A justiça que persiste é a que se pratica com humildade, partilhando cordialmente o destino dos irmãos, espalhando em toda a parte o espírito de perdão e misericórdia.

Pedro de Betancur distinguiu-se precisamente pela prática da misericórdia com espírito de humildade e vida austera. Sentia no seu coração de servidor a admoestação do Apóstolo Paulo:  "Tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração como quem o faz pelo Senhor e não pelos homens" (Cl 3, 23). Por isso foi verdadeiramente irmão de todos os que viviam em situações de necessidade e empenhou-se com ternura e grande amor na sua salvação. É quanto sobressai nos acontecimentos da sua vida, como na sua dedicação aos enfermos do pequeno hospital de Nossa Senhora de Belém, berço da Ordem Betlemita.

Também hoje o novo Santo é um urgente convite a praticar a misericórdia na sociedade atual, sobretudo quando são tantos os que esperam que uma caridosa mão os socorra. Pensamos nas crianças e nos jovens sem casa ou sem educação; nas mulheres abandonadas com tantas necessidades para enfrentar; nas multidões de marginalizados nas cidades; nas vítimas do crime organizado, da prostituição e da droga; nos enfermos desprovidos de assistência ou nos idosos que vivem sozinhos.

5. O Irmão Pedro "é uma herança que não se deve perder, mas fazer frutificar num perene dever de gratidão e num renovado propósito de imitação" (Novo millennio ineunte, 7). Esta herança há de suscitar nos cristãos e em todos os cidadãos o desejo de transformar a comunidade humana numa grande família, na qual as relações sociais, políticas e econômicas sejam dignas do homem, e se promova a dignidade da pessoa com o reconhecimento efetivo dos seus direitos inalienáveis.

Gostaria de concluir recordando como a devoção à Santíssima Virgem acompanhou sempre a vida de piedade e de misericórdia do Irmão Pedro. Oxalá ela nos guie também a nós para que, iluminados pelos exemplos do "homem que foi caridade", como Pedro de Betancur é conhecido, possamos alcançar o seu Filho Jesus.

Louvado seja Jesus Cristo!

No momento de dar a Bênção final, o Papa pronunciou ainda estas palavras: 

Antes de deixar este recinto, o lugar da Canonização do primeiro Santo da Guatemala e de Tenerife, desejo dizer-vos uma vez mais que me comovestes. Obrigado, muito obrigado, Guatemala, por esta fé, esta cordialidade e estas ruas tão maravilhosamente decoradas. Obrigado, porque sei que por detrás de cada cruz se encontra este coração. Sede fiéis a Deus, à Igreja e à vossa tradição católica, iluminados pelo exemplo do Santo Irmão Pedro. Guatemala, sê sempre fiel, sob a salvaguarda do Santo Cristo de Esquípulas! Guatemala, levo-te no meu coração!

 

 

CERIMÔNIA DE BOAS-VINDAS

DISCURSO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Aeroporto internacional de Cidade do México
Terça-feira 30 de Julho de 2002

 

Senhor Presidente
dos Estados Unidos Mexicanos
Senhor Cardeal Arcebispo
da Cidade do México
Queridos Irmãos no Episcopado
Ilustres Autoridades
Membros do Corpo Diplomático
Caríssimos Mexicanos

1. É grande a minha alegria por poder vir pela quinta vez a esta terra hospitaleira, na qual começou o meu apostolado itinerante que, como Sucessor do Apóstolo Pedro, me levou a tantas partes do mundo, aproximando-me assim de muitos homens e mulheres para os confirmar na fé em Jesus Cristo Salvador.

Depois de ter celebrado em Toronto a XVII Jornada Mundial da Juventude, hoje tive a alegria de juntar ao número dos santos um admirável evangelizador deste Continente: Irmão Pedro de São José de Betancur. Amanhã, com grande alegria, vou proceder à canonização de Juan Diego e, no dia seguinte, à beatificação de outros dois vossos compatriotas: João Baptista e Jacinto dos Anjos que, desta forma, se juntam aos maravilhosos exemplos de santidade nestas amadas terras americanas, onde a mensagem cristã foi aceite com o coração aberto, impregnou as culturas e deu abundantes frutos.

2. Agradeço as amáveis palavras de boas-vindas que, em nome de todos os mexicanos, me dirigiu o Senhor Presidente da República. Desejo corresponder-lhe renovando mais uma vez os meus sentimentos de afeto e de estima por este povo, rico de história e de culturas ancestrais, e encorajando todos a empenhar-se na construção de uma Pátria sempre renovada e em constante progresso. Saúdo com afeto os Senhores Cardeais e os Bispos, os queridos Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, todos os fiéis que, dia após dia, se esforçam na prática da fé cristã e que, com a sua vida, realizam a frase que é esperança e programa para o futuro: "México sempre fiel".

Envio daqui uma saudação afetuosa também aos jovens reunidos para a vigília de oração na Praça do Zócalo da Catedral Primacial, e digo-lhes que o Papa conta com eles e pede-lhes que sejam verdadeiros amigos de Jesus e testemunhas do seu Evangelho.

3. Caríssimos mexicanos: obrigado pela vossa hospitalidade, pelo vosso afeto constante, pela vossa fidelidade à Igreja. Neste caminho, continuai a ser fiéis, amparados pelos maravilhosos exemplos de santidade que surgiram nesta nobre Nação. Sede santos! Recordando quanto já vos disse na Basílica de Guadalupe em 1990, servi a Deus, a Igreja e a Nação, assumindo cada um a responsabilidade de transmitir a mensagem evangélica e dar testemunho de uma fé viva e operante na sociedade.

Abençôo de coração cada um de vós, fazendo-o com a mesma expressão com que os vossos antepassados se dirigiam às pessoas mais queridas: "Deus vos faça como Juan Diego"!
México, sempre fiel!

 

 

CANONIZAÇÃO DO ÍNDIO JUAN DIEGO CUAUHTLATOATZIN

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe
Quarta-feira, 31 de Julho de 2002

 

1. "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!" (Mt 11, 25-26).

Queridos Irmãos e Irmãs, estas palavras de Jesus no Evangelho deste dia constituem, para nós, um convite especial para louvar e dar graças a Deus pela dádiva do primeiro Santo indígena do Continente americano.

É com grande alegria que fiz a peregrinação até esta Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, coração mariano do México e da América, para proclamar a santidade de Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o índio simples e humilde que contemplou o rosto dócil e sereno da Virgem de Tepeyac, tão querido a todas as populações do México.

2. Agradeço as amáveis palavras que me foram dirigidas pelo Senhor Cardeal Norberto Rivera Carrera, Arcebispo da Cidade do México, assim como a calorosa hospitalidade dos homens e das mulheres desta Arquidiocese Primaz:  dirijo-vos a todos a minha cordial saudação. Saúdo também com afeto o Senhor Cardeal Ernesto Corripio Ahumada, Arcebispo Emérito da Cidade do México, e os outros Purpurados, Bispos do México, da América, das Filipinas e de outras regiões do mundo. Agradeço igualmente, e de maneira particular, ao Senhor Presidente da República e às Autoridades civis a sua presença nesta celebração.

Hoje, dirijo uma saudação muito especial aos numerosos indígenas provenientes das diferentes regiões do País, representantes das diversas etnias que compõem a rica e multiforme realidade mexicana. O Papa manifesta-lhes a sua proximidade, o seu profundo respeito e admiração, enquanto os recebe fraternalmente em nome do Senhor.

3. Como era Juan Diego? Por que motivo Deus fixou o seu olhar nele? Como acabamos de escutar, o livro do Eclesiástico ensina-nos que somente "Deus é todo-poderoso e apenas os humildes o glorificam" (cf. 3, 19-20). Inclusivamente as palavras de São Paulo, também proclamadas durante esta celebração, iluminam esta maneira divina de realizar a salvação:  "Deus escolheu aquilo que o mundo despreza [e que é insignificante]. Deste modo, nenhuma criatura se pode orgulhar na presença de Deus" (cf. 1 Cor 1, 28-29).

É comovedor ler as narrações guadalupanas, escritas com delicadeza e repletas de ternura. Nelas, a Virgem Maria, a escrava "que proclama a grandeza do Senhor" (Lc 1, 46), manifesta-se a Juan Diego como a Mãe do Deus verdadeiro. Ela entrega-lhe, como sinal, um ramalhete de rosas preciosas e ele, mostrando-as ao Bispo, descobre gravada no seu manto ("tilma") a imagem abençoada de Nossa Senhora.

"O acontecimento guadalupano como afirmaram os membros da Conferência Episcopal Mexicana significou o começo da evangelização, com uma vitalidade que ultrapassou qualquer expectativa. A mensagem de Cristo através da sua Mãe assumiu os elementos centrais da cultura indígena, purificou-os e atribuiu-lhes o definitivo sentido de salvação" (14 de Maio de 2002, n. 8). Desta maneira, Guadalupe e Juan Diego possuem um profundo sentido eclesial e missionário, e constituem um paradigma de evangelização perfeitamente inculturada.

4. Com o salmista, acabamos de recitar: "Do céu, o Senhor contempla e vê todos os homens" (Sl 33 [32], 13), professando uma vez mais a nossa fé em Deus, que não considera as diferenças de raça ou de cultura. Ao acolher a mensagem cristã, sem renunciar à sua identidade indígena, Juan Diego descobriu a profunda verdade da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus em Cristo. Desta forma, facilitou o encontro fecundo de dois mundos e transformou-se num protagonista da nova identidade mexicana, intimamente vinculada a Nossa Senhora de Guadalupe, cujo rosto mestiço dá expressão da sua maternidade espiritual que abarca todos os mexicanos. Por isso, o testemunho da sua vida deve continuar a dar impulso à edificação da Nação mexicana, a promover a fraternidade entre todos os seus filhos e a favorecer cada vez mais a reconciliação do México com as suas origens, os seus valores e as suas tradições.

Esta nobre tarefa de edificar um México melhor, mais justo e mais solidário, exige a colaboração de todos. Em particular, hoje em dia é necessário apoiar os indígenas nas suas aspirações legítimas, respeitando e defendendo os valores autênticos de cada um dos grupos étnicos. O México tem necessidade dos seus indígenas e os seus indígenas precisam do México!

Amados Irmãos e Irmãs de todas as etnias do México e da América, ao exaltar neste dia a figura do índio Juan Diego, desejo expressar-vos a proximidade da Igreja e do Papa em relação a todos vós, enquanto vos abraço com amor e vos animo a ultrapassar com esperança as difíceis situações por que estais a passar.

5. Neste momento decisivo da história do México, tendo já passado o limiar do novo milênio, recomendo à valiosa intercessão de São Juan Diego as alegrias e as esperanças, os temores e as angústias do querido povo mexicano, que trago com muito afeto no íntimo do meu coração.

Ditoso Juan Diego, índio bondoso e cristão, em quem o povo simples sempre viu um homem santo! Nós te suplicamos que acompanhes a Igreja peregrina no México, para que seja cada dia mais evangelizadora e missionária. Encoraja os Bispos, sustenta os presbíteros, suscita novas e santas vocações, ajuda todas as pessoas que entregam a sua própria vida pela causa de Cristo e pela difusão do seu Reino.

Bem-aventurado Juan Diego, homem fiel e verdadeiro! Nós te recomendamos os nossos irmãos e as nossas irmãs leigos a fim de que, sentindo-se chamados à santidade, penetrem todos os âmbitos da vida social com o espírito evangélico. Abençoa as famílias, fortalece os esposos no seu matrimonio, apóia os desvelos dos pais, empenhados na educação cristã dos seus filhos. Olha com solicitude para a dor dos indivíduos que sofrem no corpo e no espírito, de quantos padecem em virtude da pobreza, da solidão, da marginalização ou da ignorância. Que todos, governantes e governados, trabalhem sempre em conformidade com as exigências da justiça e do respeito da dignidade de cada homem individualmente, para que desta forma a paz seja consolidada.

Amado Juan Diego, a "águia que fala"! Ensina-nos o caminho que conduz para a Virgem Morena de Tepeyac, para que Ela nos receba no íntimo do seu coração, dado que é a Mãe amorosa e misericordiosa que nos orienta para o Deus verdadeiro.

No final da celebração, antes de conceder a Bênção apostólica a todos os fiéis ali presentes, o Santo Padre disse:

Ao concluir esta Canonização de Juan Diego, desejo renovar a minha saudação a todos vós que nela pudestes participar, alguns nesta Basílica, outros nos arredores e muitos outros ainda através da rádio e da televisão. Agradeço de coração o afeto de todas as pessoas que encontrei pelas ruas que percorri. No novo Santo, encontrais o maravilhoso exemplo de um homem justo, de costumes retos, leal filho da Igreja, dócil aos pastores, amante da Virgem e bom discípulo de Jesus. Ele seja um modelo para vós, que muito o amais, e oxalá interceda pelo México, a fim de que seja sempre fiel. Levai a todos quantos a mensagem desta celebração, além da saudação e do afeto do Papa a todos os mexicanos.

 

 

BEATIFICAÇÃO DE DOIS SERVOS DE DEUS
JOÃO BAPTISTA E JACINTO DOS ANJOS

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe
Quinta-feira, 1° de agosto de 2002

 

Queridos Irmãos e Irmãs

1. "Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5, 10). No Evangelho das Bem-Aventuranças, esta última convida a não desanimar perante as perseguições que a Igreja teve de enfrentar desde o princípio. No Sermão da Montanha, Jesus promete a felicidade autêntica àqueles que são pobres em espírito, que choram ou que são mansos; e também aos que procuram a justiça e a paz, que atuam com misericórdia ou que são puros de coração.

Diante do sofrimento humano que acompanha o caminho na fé, São Pedro exclama: "Alegrai-vos por participardes dos sofrimentos de Cristo, para que também vós vos alegreis e exulteis ao revelar-se a sua glória" (1 Pd 4, 13). Foi com esta convicção que João Baptista e Jacinto dos Anjos enfrentaram o martírio, permanecendo fiéis ao culto de Deus vivo e verdadeiro, e rejeitando os ídolos.

Enquanto padeciam os sofrimentos, foi-lhes proposto que renunciassem à fé católica e se salvassem, mas eles contestaram com coragem: "Dado que professamos o Batismo, seguiremos sempre a religião verdadeira". Bonito exemplo do modo como nada se deve antepor, nem sequer a própria vida, ao compromisso batismal, como fizeram os primeiros cristãos que, regenerados pelo próprio Batismo, abandonaram todas as formas de idolatria (cf. Tertuliano, De batismo, 12, 15).

2. Saúdo com afeto os Senhores Cardeais e Bispos congregados nesta Basílica. Em particular, o Arcebispo de Oaxaca, D. Héctor González Martínez, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os fiéis leigos, especialmente aqueles que vieram de Oaxaca, terra natal dos novos Beatos, onde a sua recordação ainda permanece muito viva.

A vossa terra é uma rica mistura de culturas. O Evangelho chegou aqui em 1529, com os Frades Dominicanos a usar as línguas nativas e os usos e costumes das comunidades locais. Entre os frutos desta sementeira cristã, realçam-se estes dois grandes mártires.

3. Na segunda leitura, São Pedro recordou-nos que, se alguém "sofre como cristão... glorifique a Deus por ter o nome de cristão" (1 Pd 4, 16). Derramando o seu sangue por Cristo, João Baptista e Jacinto dos Anjos são autênticos mártires da fé.

Como o Apóstolo Paulo, no seu interior, podiam interrogar-se:"Quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?" (Rm 8, 35).

Estes dois cristãos indígenas, irrepreensíveis na sua vida pessoal e familiar, padeceram o martírio em virtude da sua fidelidade à fé católica, felizes por serem batizados. Eles constituem um exemplo para os fiéis leigos, chamados a santificar-se nas circunstâncias ordinárias da vida.

4. Com esta Beatificação, a Igreja põe em relevo a sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos. Os novos Beatos, fruto de santidade da primeira Evangelização entre os índios zapotecas, animam os indígenas de hoje a apreciar as suas culturas e línguas e, sobretudo, a sua dignidade de filhos de Deus que os outros devem respeitar no contexto da Nação mexicana, pluralista na origem das suas populações e disposta a construir uma família comum na solidariedade e na justiça.
Os dois Beatos são um paradigma do modo como, sem mistificar os seus costumes ancestrais, é possível alcançar Deus, sem renunciar à própria cultura, mas deixando-se iluminar pela luz de Cristo, que renova o espírito religioso das melhores tradições dos povos.

5. "Sim, o Senhor foi grande conosco, e por isso estamos alegres" (Sl 126 [125], 3). Com estas palavras do salmista, o nosso coração enche-se de júbilo, porque Deus abençoou a Igreja que está em Oaxaca e o seu povo mexicano com dois dos seus filhos, que no dia de hoje são elevados à glória dos altares. Com um exemplar cumprimento das suas funções públicas, eles são um modelo para as pessoas que, nas pequenas aldeias ou nas grandes estruturas sociais, têm o dever de favorecer o bem comum com esmero e abnegação pessoal.

João Baptista e Jacinto dos Anjos, esposos e pais de família de comportamento irrepreensível, como já nessa época foi reconhecido pelos seus compatriotas, recordam às famílias mexicanas de hoje a grandeza da sua vocação, o valor da fidelidade na caridade e o generoso acolhimento da vida.

Alegra-se, pois, a Igreja porque, através destes novos Beatos, recebeu demonstrações evidentes do amor de Deus para conosco (cf. Prefácio II dos Santos). Rejubila inclusivamente a comunidade cristã de Oaxaca e do México inteiro, porque o Todo-Poderoso fixou o seu olhar em dois dos seus filhos.

6. Perante o rosto meigo da Virgem de Guadalupe, que deu alento constante à fé dos seus filhos mexicanos, renovemos o compromisso evangelizador que distinguiu também João Baptista e Jacinto dos Anjos. Façamos participantes desta tarefa todas as comunidades cristãs, a fim de que proclamem com entusiasmo a sua fé e a transmitam na sua integridade às novas gerações. Anunciai o Evangelho, estreitando os vínculos de comunhão fraternal e dando testemunho da fé com uma vida exemplar no seio da família, do trabalho e dos relacionamentos sociais! Procurai o Reino de Deus e a sua justiça já aqui na terra, mediante uma solidariedade concreta e fraternal para com os mais desfavorecidos ou marginalizados (cf. Mt 25, 34-35)! Sede artífices de esperança para a sociedade inteira!

À nossa Mãe celestial, queremos manifestar a alegria que nos arrebata, ao vermos ser elevados à glória dos altares dois dos seus filhos e, ao mesmo tempo, pedimos-lhe que abençoe, console e ajude, como sempre fez deste Santuário de Tepeyac, o querido povo mexicano e toda a América!

No fim da homilia, o Papa quis proferir ainda estas expressões: 

Recordo-me de que, durante a minha primeira visita, em 1979, pude visitar Oaxaca. Alegro-me por hoje ter beatificado dois dos seus filhos. Graças a Deus!

Após a celebração, João Paulo II, ainda pronunciou estas palavras: 

Senti aqui a vossa estima e voltar causou-me uma profunda alegria espiritual, de que dou graças a Deus e à sua Mãe Santíssima. Obrigado também a todos vós que preparastes a minha visita, atendendo a todos os pormenores. Obrigado aos que, com tanto carinho, me receberam nas ruas desta cidade, aos que vieram de longe, aos que escutaram e acolheram a mensagem que vos deixo, a vós que tanto rezais pelo meu ministério de Sucessor de São Pedro.

Ao preparar-me para deixar esta terra bendita, vem-me aos lábios a palavra da canção popular em língua espanhola:  "Me voy, pero non me voy. Me voy, pero non me ausento, pues, aunque me voy, de corazón me quedo!" (Vou embora, mas não me vou. Vou embora, mas não me ausento, pois, ainda que vá embora, aqui fico com o meu coração).

E depois, acrescentou:

México, México, lindo México, que Deus te abençoe!

 

 

 

 

 

 

 

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