O mistério do papa

Carlos Alberto Di Franco

Muitos dos que acompanham, na mídia e na história, a devoção e o carinho pelo papa ficam se perguntando pelo enigma dos numerosos católicos, que, ao mesmo tempo que manifestam um intenso afeto e uma comovida adesão ao papa Bento XVI, parecem recusar ou contornar os seus ensinamentos em questões morais de candente atualidade, como as relativas à família, à sexualidade e à bioética. Será um fracasso do papa? Será obstinação na defesa de valores ultrapassados que - segundo dizem alguns - os próximos papas deveriam mudar? Na verdade, o que move e comove multidões, a começar pelos católicos - com manifestações de adesão entusiasmada que impressionam a mídia e o mundo -, é, acima de tudo, a evidência de que o papa é um homem de fé, que vive e prega em plena coerência com a verdade cristã em que acredita, e que, sendo ou não compreendido, jamais abdica do seu dever de trazer ao mundo e, em primeiro lugar, aos católicos, o 'esplendor da verdade'.
Se Bento XVI procurasse o 'sucesso' - que parece ser a medida suprema da realização para os que tudo medem pelos ibopes -, bastaria que, esquecendo-se da verdade, se bandeasse pouco a pouco, como fazem certos teólogos, para os 'novos valores' (em linguagem cristã, 'contravalores'), que cada vez mais tentam dominar o mundo. É patente que, na hora atual, vivemos numa encruzilhada histórica em que são incontáveis os que parecem andar pela vida sem norte nem rumo, entre as areias movediças do relativismo e os nevoeiros do niilismo. O papa tem plena consciência dessa situação, e, em vez de sentir a tentação daqueles teólogos que aspiram aos afagos do mundo, para dele receber diploma de 'modernos' e 'progressistas', entrega a vida pela verdade que pode resgatar este mundo, sem se importar minimamente com que o chamem de retrógrado, conservador e desatualizado.
Ou será que querem um papa que deixe de ser cristão para ser melhor aceito? Pretendem que, perante esse deslizamento do mundo para baixo, com a glorificação de todas as aberrações ideológicas e morais, o papa exerça a sua missão acompanhando a descida, cedendo a tudo e se limitando a um vago programa socioecológico, a belos discursos de paz e amor e a um ecumenismo em que todos os equívocos se possam abraçar e congraçar, por que ninguém acreditaria mais em coisa alguma, a não ser em 'viver bem'? Num mundo que diviniza a liberdade como único bem e única fonte de valores, o papa não se cansa de proclamar que a liberdade, desvinculada da verdade, se corrompe e acaba levando a uma explosão de egoísmo pessoal e coletivo que destrói a dignidade do ser humano. Sem o referencial 'verdade', sem a referência a valores comuns e a uma verdade absoluta para todos, a vida social aventura-se pela insegurança de um relativismo total. Então, tudo é convencional, tudo é negociável, inclusive o primeiro dos direitos fundamentais, o da vida.
Por isso, recusa-se a aceitar a nova 'cultura da morte', a do aborto, a do infanticídio, a da eutanásia; e, igualmente, a cultura da morte do amor entre o homem e a mulher, da destruição do casamento e da família, minados pela idolatria do prazer sexual espanado; e denuncia sem tréguas a cultura hedonista, que, além de matar os inocentes incômodos, leva cada vez mais jovens ao afundamento pessoal no abismo do álcool e das drogas e da depressão psicológica de uma vida sem sentido.
E os católicos? E os jovens católicos que vibram com o papa e depois seguem a onda da cultura hedonista? Que dizer desses católicos? Não há aí um fracasso? Uma resposta válida, mas excessivamente simplista, seria a de dizer que são filhos do seu tempo. Uma resposta mais profunda exige algo mais, ainda que seja doloroso recordálo. Várias gerações de jovens católicos foram traídas por muitos daqueles que, detendo a autoridade educativa na Igreja, se deixaram enfeitiçar pela embriaguez da 'modernidade' e, no anseio de 'dialogar com o mundo moderno', a única coisa que fizeram foi capitular diante dos equívocos do mundo e deixar os jovens a eles confiados mergulhados num mar de incertezas.
A visita de Bento XVI ao Brasil será, sem dúvida, um testemunho de fé, convicção e coragem. Ao contrário dos que dentro da Igreja cederam aos apelos da secularização, o papa sempre acreditou que a firmeza na fé e a fidelidade doutrinal acabarão por galvanizar a nostalgia de Deus que domina o mundo. Acredita que o esgotamento do materialismo histórico e a frustração do consumismo hedonista prenunciam um novo perfil existencial. Ao contrário dos 'vencidos da vida', que querem curar a doença mergulhando mais a fundo nela,
Bento XVI, como o fez seu grande predecessor e, sem dúvida, o farão os seus sucessores, entrega-se, sem pausas nem cansaço, à missão de erguer muito alto a marca da verdade cristã.
Essa verdade nunca foi fácil.
Aos primeiros cristãos, acarretou-lhes a incompreensão, a perseguição, o ódio e o martírio.
Fracasso? Não. Suprema vitória, que abriu no mundo o sulco dos valores cristãos que impregnaram a nossa civilização do melhor que ela já teve e conserva. Vitória intolerável para os totalitarismos ideológicos de todos os tempos e coloridos. Mas vitória desejada por incontáveis cristãos, especialmente a juventude, capaz de vibrar com desafios exigentes, mas refratária às propostas de um cristianismo light.
O imã do papado, do atual e de todos, reside, como disse alguém, num enigma: o papa, como tal, representa não, em primeiro lugar, um grande entre os
grandes da Terra, mas o único homem no qual milhões de pessoas vêem um vínculo direto com Deus, o vigário de Cristo na Terra. Este é, de fato, o cerne do fenômeno.



Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia.
E-mail: difranco@ceu.org.br

(O Estado de São Paulo, 9 de abril de 2007)